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Futebol e rugby: uma relação de intimidade e desentendimento - 28/09/2015

 Victor Thiago Pontos de vista

Enfim, iniciou-se a Copa do Mundo de Rugby. Muito além dos televisores conectados aos jogos e os milhões de libras em circulação, um fenômeno curioso chamou a atenção, além das partidas e das rivalidades.

Repaginado como um esporte de massas, o World Rugby busca penetração em áreas até então, se não refratárias, em grande parte, indiferentes ao esporte. Sua reinserção nos Jogos Olímpicos (mesmo que na versão de sete jogadores) integra essa transformação, que tem seu embrião há, pelo menos, vinte e oito anos, quando foi criado um torneio mundial para a modalidade.

O embate entre profissionalismo versus amadorismo foi vencido por aquele. A visibilidade com a Copa de 1995, em uma África do Sul recém-saída do regime segregacionista do apartheid e governada por Nelson Mandela, abriu as portas para a entrada de dinheiro e marketing. Era sacramentado o fim da obrigatoriedade do amadorismo para o rugby e dava-se o pontapé inicial para sua transformação em espetáculo de consumo e em negócio lucrativo.

Essa espetacularização, com transmissões de torneios e partidas, propiciou um aumento considerável do interesse e da prática do rugby no Brasil – no entanto, suas origens remontam ao final do século XIX. Reforçada a demanda, o canal de TV por assinatura ESPN, detentora dos direitos da transmissão do mundial, passará todos os jogos ao vivo. Essa relação causa-consequência não é tão simples, mas não cabe aqui entrar nesse assunto.

O que aqui motiva são as considerações acerca do histórico que associa o rugby ao futebol. Nesse momento de grande visibilidade do rugby, entra em cena a história comum desses dois esportes – a todo momento reforçado pelos meios de comunicação não especializados – e a partir dessa história partilhada até certo momento, a pergunta sobre qual seria o motivo da pouca difusão do rugby pelo mundo, se comparada com a do futebol.

A pergunta é legítima e instiga historiadores, sociólogos e jornalistas que pensam o esporte enquanto um intricado fenômeno social. Há eventos e acontecimentos históricos que configuraram a atual geografia do esporte: não se pode tê-la por “natural”. E regras generalistas em História costumam não funcionar.

Na última semana, um texto saiu na imprensa com o título “O rugby é ótimo. Mas não engraxa as chuteiras do irmão futebol. Entenda por que”, escrito por um colunista, ironicamente, da ESPN. No texto, que se dedicou a tratar de um suposto motivo pelo qual o futebol se disseminou de forma muito mais abrangente pelo mundo do que o rugby, bebendo em uma fonte notória: o ensaio “Veneno Remédio”, de José Miguel Wisnik.

Quando analisamos os argumentos feitos pelo colunista para se questionar a popularidade do rugby, vemos uma trágica ausência de conhecimento do jogo para que um julgamento da estética e da dinâmica do rugby possa ser devidamente efetuada. Afirmou o colunista Maurício Barros, “não dá para dissociar esse abismo de desenvolvimento daquela cisão causada pela condução da bola. É nela que reside a razão para o futebol ser o que é. A renúncia às mãos (exceto para o goleiro) é a opção pelo mais difícil. Porque conduzir com as mãos é muito mais fácil, seguro, cômodo. A bola fica morta nos braços de quem a possui, e sua tomada pelo outro só é possível pelo uso da violência. Um tackle, um tranco, uma bordoada, um agarrão. Há estratégia, inteligência, tática, evidentemente, não quero aqui diminuir um esporte com milhões de adeptos e tremenda tradição. Mas, fundamentalmente, o resultado estético do rugby o leva para o lado dos confrontos físicos. Rugby é luta corporal por território. E a bola, além de oval, não protagoniza nada. Troque-a por um bastão, deixe-a quadrada e, em essência, nada mudará”[1].

Em Wisnik, o argumento é semelhante, atribuindo ao rugby e ao futebol americano (que fora colocado junto do rugby na análise, indistintamente, como se ambos fossem praticamente a mesma coisa, todos dos meus princípios, estética e dinâmica, o que reforça a percepção de absoluta falta de intimidade do autor com o rugby) a condição de esportes que negam a lógica do futebol da circulação da bola. “A bola não é circular, mas ovóide, além de ser carregada aos trancos, sem deslizar pelo chão. Abrindo mão de sua esfericidade, ela não tem vida própria e se resume num ‘catalisador da luta’ pelo território, um ‘pretexto para se bater’ visando a progressão parcelada sobre o terreno”[2].

Oras, nos dois trechos, pouco se fala sobre rugby, e sim sobre apenas um sombra de ideia de ambos os autores sobre o que deva ser o rugby. Por que a renúncia às mãos – com o uso de uma bola redonda - seria mais difícil quando o rugby adota o uso de ambos, mãos e pés, e tem como parte essencial do jogo o arremate estratégico da bola oval justamente com os pés, sob pressão de se receber o contato físico – pois no rugby apenas quem tem a posse da bola pode ser derrubado – além do seu manuseio sempre realizado de forma contrário à lógica “natural” do movimento, isto é, sempre com os passes efetuados para trás? A lógica de como a bola deve ser manuseada no rugby é de grande complexidade e lida a todo o momento com a superação de forças de movimento que se opõe à sua condução. Chutar uma bola oval, estar sob ameaça de um contato físico brusco e jamais poder projetar a bola com as mãos adiante, sempre tendo que passa-la para um companheiro que esteja atrás, longe de seu campo de visão. Ou melhor, tendo que dividir o campo de visão entre o companheiro que corre atrás e o oponente sedento pela posse da bola a frente. O julgamento do mais fácil parece cômodo como recurso a se provar algo sem exigir o questionamento.

Wisnik ainda indistingue rugby e futebol americano e o rugby ao afirmar que a bola é usada tal como um míssil. No rugby, tal movimento é proibido, invalidando a tese. Ademais, a bola oval no rugby quando vai ao solo pode seguir sendo jogada, pois, se ela não se projetou adiante e caiu para trás do atleta que a portava o jogo segue. Da mesma maneira, a bola chutada que vai ao solo também segue em jogo. E, como qualquer atleta de rugby um dia já percebeu, ela é viva, e muito viva. É justamente por seu formato distinto e irregular que a bola de rugby cria movimento desconhecidos pelo futebol e, portanto, desconhecidos do comentador que está apenas afeito a um tipo de bola, um tipo de movimento, uma estética. Como ela seria pretexto para violência se o jogo de rugby acompanha a presença da bola e torna ela personagem central de toda a ação? Afinal, a ação não ocorre onde ela não está, ao contrário do citado futebol americano, cuja dinâmica difere enormemente do rugby por motivos como esse. O jogo de rugby é contínuo, exatamente como o futebol, e em oposição ao futebol americano. O jogo se interrompe apenas quando há uma infração, ou uma pontuação, ou quando a bola sai do campo de jogo. O autor cita adiante que o futebol faz da bola “não um pretexto para o combate, mas do jogo um pretexto para a posse da bola”, o que também é o aspecto central do jogo de rugby, ao contrário do argumentado no texto. Posse de bola é tudo no rugby, é o ponto fulcral da modalidade.

Barros encerra seu texto com uma sucessão de tautologias acerca do motivo pelo qual o futebol seria melhor que o rugby, enquanto Wisnik trata nas páginas seguintes de analisar o futebol americano, sem em momento algum demarcar as diferenças dele com o rugby. Tudo trata-se de uma grande massa de “outros esportes que não deram certo”. Certamente, a explicação para o rugby vai muito além do texto de Wisnik. Pelo simples fato de que não se falou em rugby. E sim em cima de uma imagem estereotipada do que acredita ser o rugby. E nada mais. Porém, ressoando para além da academia, como motra Barros.

A partir desses textos brevemente expostos, o que se tira é aquilo que parece ser o mais evidente ao bom senso. O rugby está sendo comentado, mas precisa ser urgentemente melhor entendido, com material mais concreto para que uma análise crítica possa encontrar terreno para trazer novas ideias.

 

[1] http://espn.uol.com.br/post/544911_o-rugby-e-otimo-mas-nao-engraxa-as-chuteiras-do-irmao-futebol-entenda-por-que

[2] WISNIK, José Miguel. Veneo Remédio. São Paulo: Companhia das Letras, 2008, pp 144-46.

 

 

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