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Vaidade, teu nome? - Luiz Burlamarqui - 21/09/2015

Luiz Burlamarqui

Num apartamento gigantesco no Leblon, à esquina da Praia, um senhor de quase oitenta e cinco anos de idade e aparentemente muito culto, que havia sido um advogado de renome no Rio de Janeiro, presidente do Iate Clube do Rio de Janeiro e fundador da Frente Ampla para o Flamengo – a FAF – me contava boa parte das histórias de sua vida. Àquela altura, já estava bem angustiado: eu queria saber da fundação da Frente Ampla, da relação com o Márcio Braga, e do papel de figuras importantes na chapa como o Walter Clark, e das transformações do país e do clube da Gávea. Todavia, o entrevistado não estava interessado nisso. Talvez porque não se lembrasse, talvez porque já não mais lhe interessasse. Preferiu falar por duas horas a fio a respeito de pesca em alto mar.

De pronto, eram claro os significados atribuídos à pesca. A pesca era o lugar de exibição das virtudes tipicamente masculinas: coragem, virilidade, honra, orgulho. Mais do que isso, pescar era um verdadeiro rito de instituição: “Na pesca, os homens diferenciam-se dos meninos”. Esse rito de instituição que institui a diferença, traça a fronteira social entre o homem e a mulher (muito mais do que entre homens e meninos). A pesca em alto mar era também um esporte claramente de elite: passam-se dois meses em alto mar e há um sem número de iscas, anzóis, tipos de peixe etc. “Não é um esporte fácil”, disse, repetindo ipsis literis, uma frase pronunciada meses antes por Fábio Egypto, ex-presidente do Fluminense Futebol Clube e do Itanhangá Golfe Club, sobre a imersão no golfe. Quando se diz “difícil”, é preciso ler que a imersão nesses esportes aristocráticos pressupõe um investimento libidinal, econômico e simbólico. Esse investimento não é, de forma alguma, universal, mas constitui ele mesmo num outro rito de instituição, espaço de distinção e de produção social da diferença.

Era preciso ler a aula sobre tipos de anzóis como uma lição sobre a produção social da diferença. A diferença fundamental é aquela que se apoia na divisão biológica entre homens e mulheres. Essa divisão ordena o mundo social. Num determinado momento da entrevista, depois de muito indagado sobre os dirigentes de futebol, o ex vice-presidente apareceu com um ditado latino: vanitas vanitatum et omnia vanitas. Literalmente, o ditado significa “toda vaidade é a vaidade das vaidades”, mas a tradução me dada ali no Leblon foi ainda melhor: “vaidade, teu nome é mulher”.

Boa parte dos discursos autorizados sobre o futebol brasileiro – a imprensa esportiva, em particular – caracteriza a participação e o engajamento dos dirigentes de futebol nas agremiações clubísticas como subproduto da “vaidade”, “ego” e outras interpretações de caráter psicologizante. Por outro lado, esse engajamento deve ser percebido de outra forma: primeiro, como lugar privilegiado como produção social da masculinidade; e, mais do que isso, como lugar de produção de um grupo dirigente. Grupo que se reconhece e se vê como grupo a partir do engajamento.

A anedota revela mais do que esconde: nos anos 1970, Francisco Horta, ex-presidente do Fluminense, era a maior vedete da imprensa esportiva carioca. Durante quinze dias seguidos, o Jornal dos Sports produziu uma matéria tão detalhada sobre a sua vida na qual é possível saber qual tipo de prato favorito do presidente tricolor. Numa delas, Horta foi categórico: “a melhor coisa do mundo é você ser reconhecido por seus pares. Hoje, estivemos aqui com Francisco Laport. Ele não pediu, ele não solicitou. Mas nós colocamos uma sala com o nome dele. É a melhor coisa do mundo, esse reconhecimento”. Através do reconhecimento, essa produção do grupo, que se materializa no que Pierre Bourdieu definiu como “história reificada” (os nomes das ruas, a arquitetura dos prédios, palácios etc). Essa história dos “objetos” pouco a pouco é incorporada, materializada nas ações e no habitus dos indivíduos que pertencem àquela instituição.

Essa produção do grupo, o “fazer-se” dos dirigentes de futebol, não é algo dado, mas em constante elaboração. Muito mais do que ato de pura “vaidade”, portanto, ser dirigente de futebol é perceber-se como membro de uma linhagem, estar vinculado a um determinado grupo social. E esse grupo parece mais do que claro: trata-se de uma masculinidade hegemônica vinculada às camadas dominantes, e que têm sido, em uma dialética fina, reproduzida e produzida dentro dos clubes de futebol.

 

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