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Algumas notas autoetnográficas sobre o futebol português – Capítulo 1: o Benfica 4 x 3 Sporting de 2013 - 31/08/2015

zeca marques

De novembro de 2013 a abril de 2014, permaneci em Lisboa – Portugal a realizar um estágio de pós-doutoramento junto ao Grupo de História e Desporto da Universidade Nova de Lisboa (por intermédio do Prof. Dr. Francisco Pinheiro) e junto ao Mestrado em Sociologia do Desporto da Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias (sob a tutoria da Profa. Dra. Salomé Marivoet).

Entre outras atividades desenvolvidas neste período, realizei uma pesquisa nos arquivos públicos e privados da capital portuguesa em busca de fontes primárias (jornais impressos) para o projeto intitulado “A rota inversa dos descobrimentos: o conceito de brasilidade em jornais lusitanos advindo com a presença de futebolistas e treinadores brasileiros em Portugal”. Minha ideia era verificar como a imprensa generalista e desportiva abordaram a presença de dois técnicos brasileiros (Otto Glória e Luiz Felipe Scolari) e de três jogadores nascidos no Brasil e naturalizados portugueses no Século XXI (Deco, Pepe e Liedson) defendendo as cores da Seleção Portuguesa.

Ao longo de quase seis meses, era óbvio que eu não me poderia furtar a acompanhar algumas partidas de futebol in loco, nos estádios, a fim de poder conhecer melhor a “sociabilidade torcedora”[1] dos adeptos portugueses, além das formas de organização do espetáculo esportivo nos estádios lisboetas. Ao todo, foram 16 partidas que tive a oportunidade de acompanhar, entre eliminatórias para a Copa do Mundo de 2014, Liga dos Campeões, Liga Europa, Taça de Portugal e Campeonato Português.

O que proponho aos leitores, como forma de conhecimento da realidade do futebol d’além-mar, é a apresentação de quatro relatos autoetnográficos (haja vista minha ação participante e subjetiva em todos os momentos, como será explicado mais à frente) a respeito de quatro partidas tópicas às quais tive o prazer de assistir. Em ordem cronológica: o Benfica 4 x 3 Sporting, pela Taça de Portugal (09/11/2013); o Portugal 1 x 0 Suécia, pelos play-offs das eliminatórias europeias para a Copa do Mundo de 2014 (15/11/2015); o Benfica 2 x 0 Porto, pelo Campeonato Português (12/01/2014), seis dias após o falecimento de Eusébio; e o Sporting 1 x 0 Porto, também pelo Campeonato Português (16/03/2014).

Preferi anunciar que faria um relato autoetnográfico porque, antes mais nada, já apresento minhas credenciais: sou filho e neto de portugueses, nascido em São Paulo (onde sou sócio e sócio-torcedor da Portuguesa), mas com nacionalidade portuguesa e sócio-torcedor do Benfica. Optei por fazer referência à autoetnografia por entender que se tratava da melhor forma de partilhar as experiências vistas e vividas como torcedor – e não apenas como pesquisador. Chamei estes escritos de notas autoetnográficas, mas poderiam ser também narrativas pessoais, crônicas, etnografia pessoal etc. E se minha “sociabilidade torcedora” em Lisboa procurou, de início, mimetizar as práticas correntes que sempre vivenciei no Brasil, cedo percebi que era necessário lidar com o futebol em Portugal de maneira um pouco distinta, a fim de evitar alguns contratempos.

Neste primeiro capítulo, vou ater-me apenas ao Benfica x Sporting, o qual assisti cinco dias após minha chegada a Lisboa. O tal dérbi lisboeta, que pode ser comparado a um Fla x Flu ou a um Corinthians x Palmeiras, foi jogado no dia 9 de novembro de 2013, a partir das 19h45 min, no Estádio da Luz (propriedade do Benfica). Tratava-se da 4ª eliminatória da Taça de Portugal, disputada em jogo único (a fase seguinte seria já a das oitavas-de-final). O púbico do encontro foi de 47.156 pessoas, e havia uma particularidade preocupante para as forças de segurança. Por decisão da Federação Portuguesa de Futebol, organizadora do torneio, o Sporting teve o direito, como visitante, a ficar com 10% dos ingressos – o que dava cerca de 6.500 lugares.

O problema é que no Campeonato Português (organizado pela Liga de Clubes), o regulamento previa apenas uma carga de 5% da capacidade do estádio para as equipes visitantes. O Benfica punha à prova, já há alguns meses e de forma experimental, a chamada “caixa de segurança”, com capacidade para cerca de 3.250 pessoas. Tratava-se de uma área situada no último anel do estádio, isolada por grades e por redes de proteção de cima a baixo, as quais, inclusive, permaneciam à frente dos torcedores, entre as arquibancadas e o campo. É como se os visitantes ficassem dentro de uma gaiola, sem a possibilidade de atirar objetos para o gramado – e sem a possibilidade de receberam, reciprocamente, objetos arremessados pelos locais. Como acomodar, portanto, mais de 3 mil sportinguistas fora da tal “caixa de segurança”? Não houve outro modo a não ser instalar as claques (= torcidas organizadas) no primeiro anel, rente ao gramado.

Aqui, uma particularidade: a Profa. Salomé Marivoet orientava a dissertação de mestrado do Sr. Rui Pereira – chefe de segurança do Estádio da Luz. Ele cedeu-nos duas credenciais, as quais nos davam livre acesso a todos os setores destinados ao público no estádio. Minha tutora e eu decidimos portanto realizar a seguinte experiência etnográfica: assistir ao primeiro tempo do jogo infiltrado no inimigo (ou seja, em meio às claques Juve Leo e Directivo Ultras XXI, do Sporting); e assistir ao segundo tempo infiltrado (só que não) na claque dos No Name Boys, do Benfica.

Momentos antes de entrarmos no estádio, chamou-me a atenção o fato de alguns torcedores (não organizados), portando cachecóis do Sporting, circularem com tranquilidade pelos setores não destinados ao clube visitante. Até que um benfiquista velhaco, dirigindo-se de forma marota em direção a um senhor que vinha acompanhado de um jovem pré-adolescente, puxou-lhe o cachecol verde com força, ferindo-lhe o pescoço. Pensei cá comigo: a coisa pode não ser tão pacífica quanto eu imaginava.

Dentro do estádio, passamos pelo controle das forças de segurança e nos misturamos às organizadas sportinguistas, ficando em pé na escadaria do setor, atrás do gol que seria defendido por Rui Patrício (goleiro verde e titular da Seleção Portuguesa). Todos permaneciam também em pé – alguns em cima dos próprios assentos –, a maior parte deles com vestimentas verde-e-branco, e vários fumando maconha sem parar. Os cânticos contra os benfas eram repletos de frases sexistas e de baixo calão, aludindo-se quase sempre de forma chula às mulheres adversárias e fazendo-se referência à homossexualidade dos rivais. Até que, aos 12 minutos, o paraguaio Óscar Cardozo abriu o placar para o Benfica, numa cobrança de falta marota, em que a bola passeia rasteirinha por baixo da barreira verde. Precisava ficar quieto, mas não deixei de movimentar as mãos por dentro do casaco de náilon cinza que eu usava.

O jogo prosseguiu amarrado, a maconha e os cânticos sportinguistas não paravam, até que Diego Capel, aos 37 minutos, empatou a peleja. Eu, neófito de tudo, fui arrastado para o chão, num movimento semelhante ao da avalanche protagonizada pela torcida do Grêmio, em Porto Alegre. Caí em cima de alguns, outros tantos caíram em cima de mim, depois todos riram e se cumprimentaram, festejando irmãmente o triunfo e ajudando mutuamente a se recomporem. Um deles, muito simpático e líder do grupo, estendeu-me a mão para que eu me levantasse. Mal sabia ele que, na minha preocupação de não cair por medo de ser pisoteado, finquei os pés de tal maneira no chão que havia forçado sobremaneira os joelhos. Como não pude resistir àquela força tremenda, os joelhos pagaram o preço. A dor era intensa e incômoda. Salomé, socióloga das mais respeitadas pelos trabalhos semelhantes já realizados na Eurocopa 2004 e em outras partidas em Portugal, conhecia bem a “sociabilidade torcedora” dos sportinguistas – mas não eu. Assim que surgira o gol, ela se refugiara em meio a uma fileira de assentos, saindo da escadaria. Evitou assim que também fosse levada concreto abaixo.

A festa dos lagartos (por serem verdes) durou pouco: Óscar Cardozo voltaria a marcar aos 42 minutos e aos 45 minutos. No terceiro gol do Benfica, quase virei-me para aqueles milhares de sportinguistas a perguntar: “- Não há avalanche agora?” Aquela estava sendo a maior provação da minha isenção e imparcialidade de pesquisador: acompanhar três gols do Cardozo sobre o Sporting e ficar quieto, imóvel, apenas a balançar as mãos por dentro do casaco e a sentir a dor lancinante nos joelhos.

Intervalo de jogo e vamos para o lado oposto do estádio, em busca de maior tranquilidade. Se eu tivesse que, de forma metafórica, enquadrar a claque do Sporting como um ritmo musical naquele dia, diria eu que se trata de uma torcida heavy metal (nervosa, vibrante, tresloucada). Já em meio aos No Name Boys, e também com muito odor de maconha à mistura, diria eu que estava em meio a um concerto de reggae: tudo muito solto, despreocupado, relaxado. A vitória que se anunciava sobre o rival lisboeta tranquilizava a malta, composta por muitos negros e mulatos, além de alguns turistas que apareciam aqui e acolá. O clima de alta tensão que havia experimentado no primeiro tempo quase que desapareceu; a atmosfera apresentava-se desanuviada, frouxa, até que Maurício, aos 62 minutos, diminuiu o placar. O jogo voltaria a ficar tenso, mas não tanto para os No Name, que pareciam estar tragados pelo clima de festa e confiança.

Perto do fim da partida, despeço-me da Salomé. Meu pai João Marques e meu primo Joaquim Cardoso, que estavam em outro setor do estádio, esperavam-me para irmos embora. Ao sair do estádio e me dirigir para a rua, não pude crer: 6.600 vozes gritavam gol, e aquele grito ecoava longínquo, abafado. Os lagartos haviam empatado o jogo com Islam Slimani, nos acréscimos. Prorrogação de 30 minutos e eu sem poder voltar para dentro (pelo menos, não seria alvo de outra avalanche).

Cerca de 15 minutos depois, já estava dentro do carro de meu primo, voltando para casa, os joelhos sempre lancinantes. O rádio, sintonizado na Antena 1 (a rádio pública portuguesa), irradiava o jogo com a mesma sintaxe dos locutores brasileiros. Até que o também brasileiro Luisão, de maneira completamente improvável, tocou na bola para fazer o quarto gol do Benfica, aos 7 minutos do prolongamento, num frango clamoroso de Rui Patrício. Precisei ficar quieto – o Joaquim Cardoso é sportinguista, estou no carro dele. Volto a comemorar com as mãos por dentro do casaco, com receio de que ele promovesse alguma avalanche automobilística pelo caminho. Mas não houve tempo para isso. O jogo terminou com a vitória dos encarnados. Eu, com o receio de ter rompido o ligamento cruzado anterior do menisco direito, fazia ainda outra contabilidade: em todos os quatro gols do Benfica, eu me encontrava em território inimigo. Não pude comemorar nenhum deles – e ainda fui arremessado por cima de vários lagartos naquela avalanche sorrateira. Que seca! Estava só há cinco dias em Lisboa. O que viria pela frente nos cinco meses seguintes?

 

[1] Tomo emprestada, aqui, a feliz expressão utilizada por Flavio de Campos e Luiz Henrique de Toledo em artigo sobre o projeto “Brasil na Arquibancada”, publicado na Revista USP nº 99, Dossiê Futebol (set-out-nov-2013).

 

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