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A Copa do Mundo de Rugby - 25/08/2015

Victor Thiago Pontos de vista

 

No dia 18 de setembro de 2015, na Inglaterra, a Copa do Mundo de Rugby chegará à sua oitava edição, auto intitulando-se o terceiro maior evento esportivo do planeta. Os números são arbitrários, é claro, e se o torneio é o terceiro maior (após Copa do Mundo de Futebol e Jogos Olímpicos) pouco importa aqui. O Mundial de Rugby se tornou um dos pivôs de uma mudança estrutural desenrolada a partir dos anos 1980 dentro de uma das mais conservadoras modalidades do esporte para iniciar um processo de massificação e globalização ainda em curso, cujo futuro pode ser muito debatido.

A primeira edição da Copa do Mundo de Rugby foi anunciada em 1985, para que ocorresse no ano de 1987. Até então, o rugby não possuía um torneio Mundial. Mais que isso, o esporte era amador por determinação da federação internacional – a International Rugby Board (IRB), renomeada World Rugby em 2015 – e de suas federações nacionais filiadas. Com um ideal de impedir a todo custo sua profissionalização, o rugby foi por muito tempo refratário a megaeventos cuja espetacularização e interesse comercial poderiam desencadear um processo sem volta. Na Inglaterra, berço do esporte, as medidas eram mais radicais, e sequer havia uma competição de clubes em escala nacional até os anos 1970, com os clubes se baseando em amistosos. Em outras partes do mundo, as competições existiam e, em países como Gales e França, onde a presença da classe trabalhadora no esporte era grande, o flerte com práticas profissionais e remunerações ilegais eram recorrências, com estádios cheios para os grandes embates locais.

No calendário internacional, as grandes seleções europeias disputavam um torneio anual de prestígio, o Five Nations Championship, jogado entre França, Inglaterra, Gales, Escócia e Irlanda. Para os ingleses, os jogos das seleções eram momentos de exceção, nos quais o estádio de Twickenham enchia com mais de 50 ou 60 mil torcedores a cada partida, enchendo os cofres das federações envolvidas. Ademais, as excursões de seleções do Hemisfério Norte para o Hemisfério Sul e vice-versa constituíam-se como outro evento de prestígio e midiatização, sobretudo quando as quatro seleções britânicas se juntavam e formavam os British and Irish Lions, que hoje são reunidos de quatro em quatro anos para uma visita a uma das potências do Sul: Nova Zelândia, Austrália e África do Sul. Apelidadas respectivamente de All Blacks, Wallabies e Springboks, essas três seleções eram grandes atrativos em qualquer lugar, jogando em casa ou na Europa, e, com a TV, o interesse por reunir os grandes expoentes da modalidade cresceu, alimentado pelo sucesso da Copa do Mundo de Futebol. A proposta por um Mundial de Rugby teve justamente nos três países do Sul, onde o rugby gozava de grande popularidade, e na França, sempre na contramão dos interesses britânicos, como seus maiores defensores.

Nos anos 1950 e 1960 vieram as primeiras propostas, mas foi somente em 1982 que a discussão foi adiante, com Austrália e Nova Zelândia se propondo a receber conjuntamente o torneio, em momento que a África do Sul estava excluída por um boicote internacional ao regime do apartheid. Com apenas oito países votantes e a necessidade de uma maioria a favor do Mundial, a balança só pendeu a favor dos defensores do megaevento com o aceite por parte de Gales e Inglaterra, que viviam um momento de transformação interna, desde o início dos torneios nacionais e a consequente pressão por parte de novos acordos comerciais de suas federações.

Em 1987, o Mundial teve início, com 16 seleções convidadas, sem a realização de eliminatórias. O momento foi decisivo. Até então, o exclusivo sistema de test matches permitia que as oito federações que controlavam o IRB – Inglaterra, Gales, Irlanda, Escócia, França, Nova Zelândia, Austrália e África do Sul – atribuíssem caráter oficial aos jogos apenas contra quem queriam, usando tal prerrogativa como forma de manter seu domínio sobre o rugby internacional. Até então, apenas Argentina, Canadá, Itália, Fiji, Tonga, Japão, Estados Unidos, Romênia e Zimbábue (como Rodésia), que jogavam pouco contra as grandes seleções, haviam tido a “honra” de terem alguns de seus jogos contra o grupo seleto dos oito validados como tests. Todos eles foram convidados para o torneio e receberam filiações ao IRB, desencadeando um processo de abertura da entidade, que passou a aceitar filiações e a atribuir tests a todos os países que atendessem a requisitos mínimos. Inaugurou-se, não apenas a Copa do Mundo, mas o rugby internacional menos exclusivista e mais democrático. Mas, com a tradição ainda pairando, e a taça recebendo o nome do mito fundador do esporte, William Webb Ellis, o garoto cuja história fantasiosa teria protagonizado o ato fundador da modalidade em 1823 na Escola de Rugby, instituição educadora da burguesia ascendente de uma nova Inglaterra imperial.

O acordo para a criação da Copa do Mundo previa que os dois primeiros Mundiais teriam caráter teste, sendo o segundo, em 1991, dividido entre as cinco nações europeias, em um modelo distinto do utilizado no futebol. Foram cinco países sede, mas a Inglaterra recebeu a abertura e a final. Nos dois torneios ainda a África do Sul fora excluída pelo boicote, mas seguiu atuando nos bastidores. Motivo pelo qual oficialmente a União Soviética rejeitou a vaga que lhe fora assegurada em 1987 na competição.

A partir do segundo mundial as eliminatórias foram instituídas, com dezenas de países de todos os continentes buscando um lugar no torneio. O sucesso dos dois primeiros eventos, com a Nova Zelândia se sagrando campeã em 1987, ao vencer a França na final, e a Austrália conquistando o título batendo a anfitriã Inglaterra na decisão de 1991, foi o bastante para a confirmação do terceiro Mundial, na África do Sul, recém-saída do apartheid e com Nelson Mandela na presidência. A história é famosa. Afastada de grandes jogos por cerca de uma década, a África do Sul, outrora disputando com a Nova Zelândia a condição de seleção mais forte do mundo, não tinha mais a mesma força, mas emergiu vitoriosa, mesmo sem o favoritismo, derrotando a Nova Zelândia na grande final. As imagens de Mandela apoiando os Springboks, que foram símbolo do poder branco e da segregação racial no país, ganharam o mundo, tiveram forte simbolismo na construção de um regime democrático no país e, em termos mundiais, deram ao rugby uma projeção, inclusive comercial, que tornava impraticável a manutenção do amadorismo.

Após o Mundial na África do Sul, e com forte pressão da News Ltd de Rupert Murdoch, o rugby foi declarado pelo IRB um esporte aberto, e a era profissional foi instituída. O rugby repaginado e ressignificado entrou de vez na Era do Espetáculo e o Mundial de 1999, novamente dividido entre as cinco nações, com a final desta vez em Gales, teve o número de países expandido de 16 para 20, ganhando valores de mídia recordes, e título da Austrália, a primeira bicampeã do mundo. Pela primeira vez, o Brasil também buscava uma vaga na competição, com a seleção brasileira disputando sua primeira eliminatória – perdendo para Trindad e Tobago, em 1996, por 41 x 0.

Em 2003, a Copa do Mundo de Rugby voltou a ser jogada na Austrália e as imagens daquele Mundial se tornaram ícones da história do esporte pelo drama do primeiro título da Inglaterra, vencendo justamente a Austrália, em Sydney, com um drop goal de Jonny Wilkinson, a estrela do momento, e personificador de ideais amadores dentro de um esporte profissionais – caros demais a boa parte do público inglês.

A Copa foi em 2007 para a França e lá foi a vez da África do Sul, 12 anos depois das imagens de Mandela e François Pienaar se cumprimentando, levantar seu bicampeonato, derrotando a Inglaterra em Paris. Já em 2011 o Mundial viu quebrada a maldição dos All Blacks, sempre tidos como os favoritos ao título e, desde o título na edição inaugural de 1987, acumulando frustrações e derrotas memoráveis. A Nova Zelândia recebeu a Copa e sua seleção expurgou os fantasmas derrotando na final a França, sua algoz em 1999 e 2007, em duas das mais famosas derrotas de sua história vencedora. A Nova Zelândia voltava a ser campeã.

E para 2015? Com vinte anos de profissionalismo, a Copa do Mundo volta à Inglaterra e as expectativas para o mais equilibrado – e mais espetacularizado – torneio da história aumentam. Ainda com vinte seleções, e com favoritismo dos All Blacks. O Mundial seguinte, em 2019, já tem local, será no Japão, e marcará a saída da competição do eixo das oito velhas potências, fazendo de 2015 talvez um marco para o torneio.



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